Havia uma lenda sobre cinco amigos de certa tribo. Todo ano, na noite de eclipse em que o céu fica vermelho, os mais velhos diziam que não se podia sair de dentro da cabana nem vagar pela floresta. Os cinco jovens amigos ignoraram os avisos, cheios de curiosidade e sonhos de feitos heróicos, e se aventuraram em meio à mata. Passaram por um túnel que nunca haviam visto que descia à parte mais baixa da floresta... E nunca mais voltaram. Eram os índios Ari, Indaia, Ube, Nanam e Baobao
Do outro lado eles agora estavam em outro
lugar... Um mundo estranho que os amigos chamaram de “sempre-noite”. Onde a lua
não se movia no céu. Os amigos se armaram de confiança, pois possuíam machadinhas
e arcos para enfrentarem o que fosse.
Era impossível voltar por onde vieram. O
túnel virava um escorregador íngreme. Baobao insistia que haviam chegado ao
mundo espiritual. Ube que estavam no mundo dos pesadelos. Ube tinha um pé no
mundo espiritual, ouvia uivos e sussurros distantes desde criança, se aquele fosse
o mundo espiritual ele saberia.
Não haviam animais lá, pelo menos nenhum
animal comum. A natureza ali possuía fenômenos próprios. Curiosamente muito
tempo se passava, mas a fome que surgia na mesma velocidade sumia.
Uma flecha voa cortando o escuro,
fincando sua ponta afiada no ombro de Nanam, com uma ferida profunda. O susto
acordou Ube de sonhos distantes. Os jovens se entreolham preocupados, enquanto
limpam e fazem um curativo no amigo. Ari estava um pouco mais a frente do grupo
e passou pela sua cabeça se os amigos fariam tudo àquilo por ele. Para a
surpresa de todos algo chocante acontece depois. A ferida não inflamou e o
sangue pára de fluir. Poucas horas depois o amigo já consegue se mover sem
problema. Nanam agora está convicto que estão no mundo espiritual. De onde veio
a maldita flecha?
Ari tinha um problema na mão direita e
por isso não podia esticar totalmente os dedos desde que era menino “curumim”.
Compensava com inteligência e astúcia, além da força no braço esquerdo. Sentiu
um toque amigo no seu ombro. “Devemos permanecer juntos e de ouvidos abertos”
Era Ube. “Você acredita em destino escrito pelos deuses, certo?” Falou com um
sorriso. Ari suspirou, conseguiriam sair dali com certeza!
Não se sabe quanto tempo passou. A
floresta estava cheia de constantes silhuetas e sons de luta ecoando ao longe,
que tornavam o percurso extremamente estressante. Membros de outras tribos
também estariam perdidos por aqui?
Em uma clareira eles encontram três estranhas
figuras. Eram índios anciãos. Todos envoltos em longas vestes, apenas com os
rostos visíveis. Um deles se adianta e conta a eles lentamente:
“Tanto tempo passou... As noites são uma
aranha balançando no escuro em uma noite sem vento, segura apenas por um fio...
Todos se perderam... Talvez vocês sejam aqueles que conseguirão... Não recuem
jamais, atravessem o córrego de águas vermelhas... Subam a cachoeira Invertida...
Vençam os desafios... Passem as ruínas... Superem a tentação e não leiam a
inscrição... Sigam a flecha que voa de costas... Na grande árvore façam
silencio até ver o gavião que segura a flecha... Continuar... Duvidar...”. O
ancião parecia confuso por alguns instantes e então silenciou.
Os cinco amigos prosseguem. Poucos metros
dali pulam sobre o estranho córrego vermelho.
Chegam na impressionante cachoeira cujas
águas fluem rio acima, vêem uma bruxelante claridade que vêm lá do alto a e
decidem prosseguir, escalando sua encosta.
Lá em cima há uma grande fogueira. Nela,
pilhas de corpos chamuscados. Há dois guerreiros mascarados sanguinários
cobertos com sangue seco. Os dois demônios possuíam monstruosas lâminas de
metal no lugar de uma das mãos e atacam uivando, enlouquecidos.
Os amigos conseguem vencer em um violento
combate com muito custo. Apenas Ari, Ube e Baobao sobrevivem ao combate.
Baobao não deixou que vasculhassem os
corpos “O Jurupari se dividiu em dois para testar nossa coragem, se mexermos
neles seremos amaldiçoados”
Pouco tempo depois eles encontram ruínas
metálicas muito estranhas, provavelmente coisa antiga dos homens brancos. Havia
algo escrito em uma pequena placa de metal, com aspecto antigo. Apenas Ari
consegue entender as letras dos homens brancos nela. Os amigos lembram as
palavras do estranho ancião e decidem por não ler a placa, mas a levam.
Procuram por pouco tempo até encontrarem
a silhueta que passa chacoalhando pelos galhos das árvores. Era a flecha que
voa de costas. Demorou certo tempo para encontrar o caminho, mas os amigos
memorizaram os farfalhar da flecha voando.
“São sempre os mesmos ciclos” Ube diz.
“Amanhã como ontem”.
Ari sente como se a placa o chamasse.
Certa noite, longe dos outros, ele não resiste e a lê.
Os amigos finalmente chegam à grande
árvore. Ali encontram, chocados, corpos. Pilhas e pilhas deles caídos à beira
do riacho. São os corpos deles três. Poucos corpos de Ari, muitos de Ube e
Baobao. Todos praticamente idênticos, com expressões de horror e feridas de
batalha. É esse riacho que encosta abaixo torna-se o córrego vermelho, com a
sangue derramado deles mesmos.
Todos estão muito nervosos. Os três
amigos discutem. Ari decide mostrar e placa dos homens brancos e dizer seu
significado, ou o que o jovem conseguiu tirar dele, em voz alta:
“Continuar o experimento dará errado. Mil
ciclos adicionais serão necessários para esfriar o núcleo.” Abaixo do texto há
um desenho de um pêndulo estilizado, como se fosse para frente e para trás...
Após tempo de discussões Ari parece enlouquecer
e saca sua machadinha, como se possuído por um espírito mau. Diz que aquele é o
mundo dos mortos, que os corpos são mais ilusões feitas de reflexo das águas e
que de acordo com a mensagem continuar é um erro, apenas o mais forte deles irá
conseguir sair dali e se juntar aos deuses, após matar mil cópias falsas.
Ube saca seu arco e flecha e atira contra
ele, mas erra e sua flecha voa acertando uma árvore mais distante. Ari,
irritado, salta em sua direção com fúria. Em seus últimos momentos, para o
choque de Ari, ele poderia jurar que Ube morreu com um sorriso no rosto.
Ari, ainda coberto de sangue, descansa
sobre os corpos dos dois amigos. Pouco tempo se passa. Um farfalhar próximo.
São os três amigos saindo novamente em direção à grande árvore. Ari,
estupefato, cruza olhares com si mesmo e sua mente dá um estalo. Ele decide só
confiar em si mesmo.
Parte para atacar Ube e Baobao. Sua
contraparte fica imóvel todo o tempo. Após matar os amigos pela segunda vez
senta e discute a mensagem da placa com o novo Ari, agora entende que aquele
Ari também já leu a placa escondido horas antes. Os dois puxam a placa e
mostram ao outro. É a mesma placa. Loucura do mundo dos mortos. Como algo que é
um pode ser dois?
Poucas horas depois mais três versões dos
amigos chegam. Os dois Ari agora juntam-se e matam rapidamente Ube e Baobao. O
terceiro Ari ouve toda a explicação em silêncio. Concordando.
Mas algo muda. Após poucas horas o
próximo grupo de três chega, mas dessa vez o quarto Ari não aguarda em silêncio,
nem concorda com tudo aquilo. Ele luta ao lado de Ube e Baobao. Morre após
muito esforço. Os três Ari se entreolham, pensativos.
Mais algumas horas, mais um grupo dos
três aparece. A história se repete, o quinto Ari também não trai os companheiro,
os três primeiros Ari têm grandes problemas, e conseguem vencer, mas agora
estão preocupados. O que mudou? Porquê os novos Ari não conseguem entender?
Os três jovens Ari conversam e agora
decidem que permanecer ali não seria vantagem, e decidem seguir por caminhos
diferentes.
Um dos Ari decidiu seguir em frente e
observa, surpreso, que a flecha que Ube disparou antes voou e fincou em uma
árvore, bem abaixo de uma grande mancha na madeira que parecia um gavião.
Aquilo trouxe uma lágrima ao rosto do jovem “devíamos ter silenciado como o
ancião pediu... O gavião que segura a flecha estava tão perto”
Poucos momentos depois, como que por
mágica, a flecha na árvore estala, sai de onde estava na árvore voando de
costas de volta à escuridão da floresta. Em breve ela guiará o próximo ciclo.
Finalmente entendeu a mensagem. Não estão
no além. Os homens brancos fizeram alguma besteira e prenderam a floresta nesse
“sempre-noite” avermelhada. Aqui os momentos vão e voltam como a aranha balançando
na teia sem vento, igual estava no desenho da placa.
Dali de cima ele vê a clareira com a
grande fogueira. Os dois Ari chegam ali. Eles pegaram metais nas ruínas dos
homens brancos e batem com pedras do rio, moldando o metal em afiadas lâminas.
Raspam a cabeça, colocam máscaras improvisadas e usam as lâminas para cortar as
próprias mãos direitas. As feridas aqui não inflamam nem dão febre. Dessa forma
quando novo grupo chegar não perceberão a identidade dos dois. Em pouco tempo
suas mentes regredirão à um estado selvagem e passarão uma eternidade matando
seus amigos e a si mesmos, uivando no escuro da sempre-noite.
O jovem decide pegar sua faca e com ela escreve
uma mensagem embaixo da mancha em forma de gavião.
“Continuar juntos, não duvidar”
É esse Ari, com a consciência pesada, que
descerá a montanha para tentar deixar explicar o que acontece para os amigos.
Infelizmente o caminho de volta não é normal e demorará séculos até chegar lá.
Ele se tornará mais um dos anciãos, se cobrirá em panos para esconder a mão e
as cicatrizes de batalha, conseguindo lembrar apenas momentos chave da jornada.
Porém, antes disso, Esse Ari da grande
árvore olha o horizonte e suspira, entendendo que tinha mais uma coisa a fazer.
Ele teria de ter mais fé. Ali, do alto da monte dispara uma flecha para baixo,
flecha essa que viaja grande distância.
Dessa vez um Ube sonhador pega a flecha
no ar com grande proeza para a surpresa de um assustado Nanam ao seu lado.
“Pelos deuses, quase me acertou no ombro!”
Pegar a flecha trouxe à Ube um sorriso no
rosto e uma lembrança da infância. Os amigos não teriam como saber, mas certa
vez quando curumim teve um sonho que os deuses lhe enviaram uma flecha e ele a
pegava no ar.
Bate no ombro de Ari e comenta apenas a
lição da voz do sonho.
Ari, meu irmão, certa vez os deuses me
revelaram grande lição em um sonho que não cabe só a mim compreender “Três irmãos
fiéis são o suficiente para escapar de um grande buraco. Mesmo quatro
desconfiados estão condenados a se afundar nele por todas eternidade”. Ari
sorri e concorda. Eles continuam a jornada.